M.M.D.C: Entrevista Exclusivo com o vocalista Carlos Finho

Um dos maiores compositores do Brasil, e ex-vocalista da banda 365, que atualmente reformulou seu projeto M.M.D.C., nos concedeu essa brilhante entrevista onde fala da Cena Rocker em São Paulo além de seu trabalho como poeta onde divulga atualmente o seu mais novo livro “Poemas de Combate”.

A ILHA DO METAL-)Antes de mais nada Finho, gostaria que você se apresentasse, pois mesmo falando que se trata de um dos melhores letristas e compositores do Brasil, é melhor ouvir/ler de você,  sua história e de como entrou na música?
CARLOS FINHO- Iniciei o estudo da músicas antes de ser alfabetizado. Minha família é protestante, há uma cultura musical em determinadas correntes evangélicas e isso é muito bom. Desde criança eu queria trabalhar com literatura. Comecei a cantar porque não gostava da maneira como os vocalistas cantavam minhas músicas rsrsrs
Em 1978 (14 p/ 15 anos) eu me apresentei num festival cantando uma música minha pela primeira vez. Considero isso o início da minha vida profissional como músico. Em 1980, aos 16 anos um jornal do interio do estado (Taubaté) publicou uns poemas meus. Isso pra mim é o início da minha vida literária. Desde então vivia montando bandas . Em 1983, eu e o Mingau(Ultraje) montamos a primeira de uma série de bandas onde tocamos juntos. Em 85 ele me chamou pra uma banda que ele estava tentando agitar. Formamos a primeira versão do que viria a ser o 365 que todos conhecem hoje.Ele gravou o primeiro disco e pulou fora. Eu gravei todos os discos da banda, numa relação de quase 30 anos e muitos desentendimentos.

A ILHA DO METAL-) você acabou de reformular o M.M.D.C, como surgiu a idéia e como foi a escolha de cada membro desta nova formação?
CARLOS FINHO- Montei o MMDC em 1995. Em 97 lancei o disco Non Ducor Duco. A banda é fruto de um dos vários desententimenos que aconteciam no 365. Eu sai e no mesmo dia, o guitarrista e o baixista também sairam e pediram pra tocar no MMDC. Nesse último retorno do 365 as coisas iam mais ou menos bem, até que houve um grande confusão em março passado e o guitarrista me disse que ia sair da banda. eu disse à ele que não ficaria na banda sem ele. Pensamos em remontar o MMDC, exatamente como foi em 95. Ele chamou até o baixista do 365 na época, que aceitou. 5 semanas depois, soube pela imprensa que ele havia voltado ao 365. Pedi explicações e ele me disse que o retorno dele era por motivos monetários. Desde então não mais nos falamos. Eu segui em frente. Pela primeira vez, procurei por pessoas que, além de talento, deveriam ter comprometimento. Não me arrependi de agir dessa maneira.

A ILHA DO METAL-)Você se apresentou no Rock nos Trilhos na Estação Barra Funda, que até o vídeo da Katia e Bolivia ilustra essa entrevista, a qual agradecemos ao casal Rock pela iniciativa, Como foi a sensação de tocar em uma estação de trem? Já que é um lugar bem diferente, e havia usuários passando pela estação no momento do show?
CARLOS FINHO- É a segunda vez que faço o projeto. Já toquei em 2006. É muito bom. É um local sagrado, onde passam pessoas honradas, indo ou voltando do combate. Faço com orgulho. Não há cachê pra tocar nesse evento, mas faço como se ganhasse muito. Acredito no que faço!

A ILHA DO METAL-) Assistindo ao vídeo achei a sonoridade mais visceral e cru do que sua antiga banda, o 365, foi proposital ou aquele foi o momento pela ansiedade e estréia da nova formação?
CARLOS FINHO- Foi uma mistura de tudo isso. Havíamos feito só 4 ensaios e os meninos estavam inseguros. Há que se dizer também que meu público é muito intenso e eu cultivo isso. Acho que uma apresentação deve ser uma experiência única e marcante e isso é assustador mesmo para músicos experientes. Quando eu me sintonizo com os espectadores a energia no palco é eletrizante e os meninos ainda não estavam acostumados com isso! rsrsrs Acho que até eu me assuto, mesmo depois de 34 anos fazendo isso!

A ILHA DO METAL-) Planos para o futuro do M.M.D.C. Algum álbum em vista, o primeiro LP será relançado como CD?  sTambém lhe pergunto o que podemos esperar no show do dia 25 de agosto no Black Jack? E o que achou de uma das mais tradicionais casas do Rock ter voltado? E aproveito para perguntar do que esta achando do cenário Rock que temos hoje em São Paulo? Já que estavamos lá no Hangar e vimos aquela patifaria que foi o Festival de Musica Independente com uma má divulgação e som pífio em uma semana de Virada Cultural que tinha tudo para estar completamente lotada.
CARLOS FINHO- Já estamos ensaiando músicas novas pro segundo disco. Tenho 18 músicas prontas que fiz nos últimos tempos e acho que vamos aproveitar todas. O show no Black Jack é dia 1 de setembro e a casa parece bem bacana. Acho que acertaram na mosca ao se mudarem pra Santana onde tudo é mais Rock and Roll. O cenário é quase o mesmo, faltam os “atores” né? rsrrs O fato é que a maioria das pessoas faz as coisas por dinheiro, fama e poder. Rock no Brasil só deu isso pra quem já tinha, pelo menos, dinheiro. Existem boas cabeças fazendo rap e isso é reflexo da exposição que há sobre esse gênero. Uma sociedade injusta como a nossa (e a dos EUA) cultiva esses estilos pra expurgar um pouco do sentimentos de culpa; faz parte do jogo.
Quanto aos “micos”, acontecem, né? Tem gente que acha que é só colocar um alargador de orelha que a mente dele vai expandir também! rsrs Alugam um espaço que tem moral, como o Hangar por exemplo e fazem a papagaiada que vc viu. Essas coisas acontecem.

A ILHA DO METAL-) Você acabou de lançar meses atrás o livro “Poemas de Combate” como está a repercução do mesmo e como você fará para administrar as duas carreiras?
CARLOS FINHO- O livro está por aí, criando vida própria que é o que faz uma obra de arte de verdade. Como disse, preparei-me a vida inteira pra isso, então pra mim é normal. Uma coisa sobre o livro me surpreendeu. O preconceito social é muito maior no meio literário do que no meio musical. Quando alguns críticos e escritores perceberam que eu havia feito um livro onde eu não me portava como “arauto dos injustiçados” e nem usava essa linguegem tosca que alguns “representantes da periferia” usam, simplesmente não entenderam. No Brasil, ao contrário da maioria dos outros países, literatura é propriedade de gente rica e serve como passaporte pra professores e alunos de grandes universidades se movimentarem no circuito cultural.Tudo bem… A gente ainda vai chegar lá! rsrs

A ILHA DO METAL-) Uma das grandes características suas, e expressas em suas letras é a paixão pelo estado de São Paulo, e nesse quesito me identifico muito nelas e acho correto, pois quem ja trabalhou como eu no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia ou Rio Grande do Sul sabe que o povo desses respectivos estados valorizam sua terra bem diferente do que acontece por aqui em São Paulo, de onde surgiu essa temática em suas letras?
CARLOS FINHO- Para mim o Brasil só é um país até o dia em que houve o golpe cívico/militar que derrubou a monarquia. O que somos hj em dia é uma américa aportuguesada, com 27 países tão diferentes quanto a Argentina é da Guatemala, provavelmente mais. O que faz de São Paulo a maravilha que é , pode ser dito principalmente pelos que vieram de fora e se identificaram com esse povo solidário e aguerrido que somos. Essa minha visão do Brasil também me trás muitos problemas de aceitação por parte da mídia, pois há que se manter uma falsa ideia de que o “país” é o mesmo, não importa onde se esteja. É aquela história do pesquisador que quer mostrar um Brasil pros gringos ou pra elite que continua vendo o Brasil pelos olhos dos outros.

A ILHA DO METAL-) Falando de um dos seus clássicos, e é uma das grandes curiosidades minhas na música, como surgiu a inspiração para a música “São Paulo” (para quem está beirando os 40 considera essa música como o Hino de São Paulo.)?
CARLOS FINHO- Quanto a história da canção São Paulo, o que aconteceu foi que eu sempre incluo temas paulistas nas canções que faço e no 365 não foi diferente. Eu queria fazer o primeiro disco todo voltado pra isso, mas eles não entenderam. Um dia o guitarrista me convidou a fazer uma canção específicamente sobre São Paulo. Mostrou um arranjo onde eu coloquei a melodia e a letra que fala dos clichês que formam toda metrópole: Solidão, incompreensão…Mas quando parece que vai haver uma negação, o personagem se diz apaixonado pela cidade, proque ela é e sempre foi mágica mesmo quando era uma vila há 450 anos atrás

A ILHA DO METAL-) Finho Obrigado pela entrevista e sinta-se a vontade que a casa é sua, te deixando livre para o que quiser dizer a nossos leitores.

CARLOS FINHO- Disse uma vez e repito: O profissionalismo de vocês é admirável. É reconfortante saber que tem gente que respeita o artista pela obra dele e não por aquilo que ele pode pagar pro veículo de comunicação. Você abre o jornal e tem gente chamando os outros de corrupto através de matérias pagas ou falando da miséria do povo em canções que são tocadas nas rádios mediante pagamento de “jabá”. Faço as coisas do meu jeito e admiro quem tem peito de ser assim também. Desejo à todos que se equilibrem no tripé 1-Vergonha na cara, 2 Sinceridade, 3-Senso de ridículo. É difícil, eu sei…Caio todo dia, mas me levanto! PAZ.

 A ILHA DO METAL-) Obrigado Carlos Finho, são as únicas palavras que podemos dizer.