Claustrofobia: Muito além do “Metal Maloka” em entrevista com Alexandre de Orio.

Batalhando na cena Brazuca desde 1994, o Claustrofobia com seu “Metal Maloka” é considerado uma das mais importantes bandas da cena underground brasileira.Depois de muitas experiências , entre elas as Turnês na Europa, após o lançamento do muito bem aceito “I See Red”(2010), o Claustrofobia retorna com força total em seu ultimo álbum, “Peste” , eleito por inúmeros sites e revistas especializados como um dos melhores lançamentos do ano de 2011.O guitarrista do grupo Alexandre de Orio , cedeu gentilmente uma entrevista ao nosso site, e num bate-papo descontraído comenta sobre o ultimo trabalho do Claustrofobia , sobre o lançamento de seu livro “Metal Brasileiro”, e mostrando um outro lado do musico que poucos conhecem.

Alexandre, a maioria das pessoas (headbangers) te conhece pelo Claustrofobia , mas você atua também em um quarteto de cordas, o Kroma, que não tem nem um pouco a ver com o claustrofobia!

Alexandre: Realmente é bem diferente e apresenta uma nova forma estética para a guitarra elétrica. É uma salada musical, tocamos desde música clássica, chorinho, blues, moda de viola, baião até rock. Será lançado o novo álbum daqui alguns meses. Vai se chamar “DesConstruindo” e conta com três grandes participações: Heraldo do Monte, Vera Figueiredo e Roger Moreira.

Considerando a sua formação musical, seria meio difícil associar o Alexandre musico ao Claustrofobia!Nós que escutamos o som “Metal Maloka” não imaginamos um guitarrista lendo livros e mais livros… estudando e se especializando…teoria e afins (N.r Alexandre além de guitarrista na famosa banda de “Metal Maloka” , também é formado em musica pela Faculdade de Artes Alcântara Machado –FAAM- , com pós graduação em Linguagem Musical pela Faculdade de Musica Carlos Gomes e Docência Superior em Música –FAAM-).

Alexandre: Exatamente. A maioria das pessoas me conhece mesmo pelo Claustrofobia, mas estes dias mesmo , recebi uma mensagem de um headbanger que me conheceu por causa do quarteto e só depois ficou sabendo que eu tocava no Claustro também. Em geral, quando as pessoas descobrem o quanto já estudei, de ter feito faculdade de música, pós-graduações etc., ficam meio admiradas por tocar metal. De certa forma é um tipo de preconceito. Acho que isso mostra o quanto o metal também tem que ser valorizado por muitos músicos.

Levando em consideração tudo isso, você traz essas influencias de outras vertentes para o Claustrofobia?

Alexandre: Sim! Pra cacete!Já faz muito tempo que sofro essa influência. O fato de eu ter cursado uma faculdade de música, e atuar em outros projetos musicais tocando jazz, música brasileira, fui cada vez mais me aprofundado em outras áreas. As vezes estou tocando algum outro gênero musical e penso “Putz…isso aqui da pra usar, acho que ficaria legal”, vou experimentando. A idéia do livro surgiu a partir destas pesquisas, criando riffs em cima de levadas e ritmos da música brasileira.

Isso influenciou diretamente no “Peste”?Afinal é o primeiro álbum do Claustro cantado integralmente em português…

Alexandre: Na verdade, já faz muitos anos que vínhamos cogitando a idéia de fazer um álbum em português, mas nunca encontramos o momento certo. Fomos deixando e fazendo os álbuns em inglês. Depois de muitos acontecimentos, como turnê na Europa e tudo mais foram um grande amadurecimento e experiência para a banda, tanto musicalmente quanto nas letras (normalmente eu não escrevo as letras). O público sempre reagiu muito bem com nossas músicas em português, acho que foi à hora certa pra isso, depois de alguns discos em inglês também. Em geral, compor em inglês acaba sendo diferente, a gente acaba tendo outra postura, mesmo que inconsciente; o português é um pouco mais direto e é a nossa língua! Sem muita firula ou complexidade. Não digo que influenciou diretamente, mas indiretamente sim.

Muitas pessoas consideram fazer Heavy Metal em português mais trabalhoso, devido à métrica do nosso idioma que às vezes dificulta ao unificar com uma melodia. Essa opção pela língua portuguesa, atrapalhou ou ajudou o Claustro na hora de compor?

Alexandre: Não… Eu acho que não. Na verdade nunca tivemos dificuldade, eu acho que seja até mais fácil compor em português levando em conta o som do Claustrofobia.Começávamos a compor algo…ai já surgia uma letra em cima …a meu ver era mais fácil …mais natural.É uma coisa mais rápida…ainda mais por que usamos influencias de varias vertentes como Hardcore, e também influencia do Ratos de Porão.
Nunca tivemos dificuldade para compor em português. Parece sair mais fácil, mais natural. Tem música em português que finalizamos no dia de gravação mesmo.

Este ano em especial, depois de algumas declarações de músicos brasileiros na internet polemizando sobre a cena brasileira, é de se perceber certa onda de “nacionalismo” musical. Não que estejam valorizando mais o metal nacional agora, mas talvez estejam começando a acordar para enxergar o que temos no metal brasileiro. O Lançamento do Peste em português traz essa coisa de “metal brasileiro” cantado na nossa língua.Foi uma tentativa de valorizar a identidade linguística brasileira?

Alexandre: Tem isso também. Mas como falei, isso é uma idéia antiga, bem antes de toda essa polêmica que aconteceu há pouco tempo. A gente sempre percebeu que a reação do público nas músicas em português sempre foi maior, pelo fato de cantarem a letra toda, o refrão e saber o que está sendo dito. Quando aparece um palavrão então, os caras berram (risos).

E agora voltando a falar da sua formação, frequentemente a gente vê músicos que se especializam demais, ou se tornam “virtuosos” demais, e acabam deixando de lado certos subgêneros do Heavy Metal, por não poderem explorar lados mais complexos da musica, isso aconteceu com você em algum momento?

Alexandre: Não!De forma alguma. Eu sou muito aberto, não sou radical, comecei também tocando muitas coisas diferentes, e quando fiz aulas, meu professor era guitarrista do Oswaldinho do Acordeom. Eu lembro dele me falar “o metal não é minha praia (eu estava até com uma camiseta do Sepultura na primeira aula), mas eu tenho um amigo mais desta praia que dá aula aqui, se você estiver afim..” e eu disse “Não , não, o que eu quero é aprender a tocar, independente do gênero!”, então fazendo aula com ele eu aprendi muita coisa, de jazz, musica brasileira, fusion, música clássica. Era bem eclético. Ao mesmo tempo eu aplicava muita coisa que ele me passava no rock e metal que é o que eu mais curtia na época. Mas com certeza fui ter mais contato com outros gêneros musicais na época da faculdade. Hoje então, tenho ainda mais a cabeça aberta. Exploro coisas no Quarteto que no Claustro não daria pra explorar, assim como exploro coisas no Claustro que no Kroma não exploraria.

E foi a partir daí que surgiu a idéia de transformar essas experiências com estilos diferentes em um livro?

Alexandre: Sim, vem daí também. É todo um trabalho que venho explorando há muito tempo. Estou sempre pesquisando, estudando, então essas experiências foram uma porta pra que surgisse o livro.

Sobre seu livro “Metal Brasileiro: Ritmos Brasileiros Aplicados na Guitarra Metal – Novos Caminhos para Riffs de Guitarra”, conte pra gente um pouco da idéia e o contexto que ele aborda.

Alexandre : Como disse, há muitos anos venho experimentando ritmos diferentes no Claustro, e aos poucos foi surgindo coisas interessantes. Mas a idéia mesmo de começar a transformar todo esse material em um livro, foi quando comecei a estudar livros de bateria na guitarra…

Bateria na guitarra?(risos)

Alexandre:Isso! Comecei a pegar umas levadas de música brasileira que tem em livros de bateria e fui procurando alguma forma de executar isso na guitarra, criando riffs ou encontrando formas de palhetar determinada célula rítmica… Então fui catalogando tudo que descobria, me baseando em vários ritmos. Comecei estudando o livro “Novos Caminhos da Bateria Brasileira”, de Sérgio Gomes, que inclusive era o professor de bateria da faculdade de música que cursei. O primeiro ritmo que ele aborda é o samba e no desenrolar percebi que poderia criar uma Série para abordar diferentes ritmos. Esse primeiro livro, que é o primeiro volume, aborda somente o samba; então encontrará várias levadas dentro das ramificações do samba como Samba-Funk, Samba-de-roda etc. – assim como células rítmicas características do gênero, mas tudo aplicado na guitarra voltada ao metal. Além de ter como objetivo um estudo mais técnico, ligado ao ritmo e palhetada, a idéia é também ajudar no processo criativo de riffs. Abre a possibilidade de um estudo para bateristas também porque além da escrita para guitarra tem as partes de bateria, que foi de onde surgiu.

E na hora juntar isso com o Heavy Metal, é possível fazer isso em fugir das origens da musica pesada?Pois são dois estilos totalmente opostos…

O único cuidado que se deve tomar, é que a música não se torne uma caricatura, que não fique uma coisa muito forçada. Garanto que dá para usar mesmo e o resultado é muito bom. Confira o vídeo “Metal Brasileiro” postado na internet. Faz você criar coisas diferentes, te leva para outros caminhos. Tem algumas frases, por exemplo, o “telecoteco” para dar um exemplo, uma coisa é você fazer isso num tamborim; agora você executar isso na guitarra, com uma abordagem voltado ao metal vira uma coisa totalmente diferente e agressiva. Ai então você une com uma bateria já com uma pegada mais metal, ninguém vai associar isso ao samba. Aliás muita coisa, se eu não falasse de onde teria vindo ninguém saberia que nasceu de uma levada de samba ou qualquer outro lugar.

E você já tem idéia de que outros ritmos vão ser abordados nos próximos volumes da serie?

Alexandre:Já tenho alguns esboços, mas não sei dizer ao certo qual será o próximo…

E tem um ritmo brasileiro em especial que você acha que deveria ser mais explorado no Metal Brasileiro?

Alexandre:Acho que não tem um em especial, na verdade, tudo pode ser explorado desde que tenha bom senso. O negócio é experimentar. Mas tem que saber o limite para não descaracterizar o metal no caso ou deixá-lo chato. O que proponho não é só utilizar um batuque aqui ou ali e sim dar um tratamento no riff de guitarra, na palhetada utilizando esses elementos como “pano de fundo”, isto só tende a enriquecer.

Alexandre, muito obrigado.O espaço é todo seu …

Alexandre : Primeiramente, obrigado pela entrevista Mayara. Quero agradecer também, muita gente que está dando a maior força neste projeto, direta e indiretamente. Não dá pra citar nomes porque são muitos, mas vai desde amigos próximos até aqueles que tenho somente contato na internet. Valeu a todos os fãs do Claustrofobia e do Kroma!

 

Alexandre de Orio
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