Scorpions: show de Curitiba por pouco não vira decepção

Na última terça-feira (21), aconteceu em Curitiba o quarto show da fase brasileira da Get your Sting and Blackout World Tour, a turnê mundial de encerramento do Scorpions. Nós da Ilha do Metal tínhamos como missão fazer uma entrevista com os membros do Tierramystica, a banda de abertura, e realizar uma cobertura de ambos os shows – Tierramystica e Scorpions – e, quem sabe, conseguir pelo menos uma foto com a banda alemã. Bom, não foi bem isso que aconteceu; não por incompetência nossa, mas sim por completa desorganização da produção do show.

O show, que fora confirmado na cidade no final do mês de junho, tinha como local o estádio da Arena da Baixada; entretanto, faltando menos de um mês para a realização do evento, este foi transferido de localidade: o estacionamento do Centro de Eventos Expotrade, em Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba). Segundo a produtora, a Arena da Baixada não apresentava os requisitos mínimos para comportar um evento daquele tamanho.

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Chegado o fatídico dia – 21 de setembro – depois de muito tempo dentro do ônibus, aportamos no local do show por volta das 14h30. Fomos vasculhar o lugar: o palco estava sendo montado ainda e a Arena do show não tinha nem começado a ser organizada. Segundo Alexandre Tellini, guitarrista do Tierramystica, que foi muito solícito com nossa assessoria, por volta do meio dia, quando o palco já estava pronto, descobriu-se que este estava torto e, consequentemente, seria necessário desmontá-lo e remontá-lo. A estrutura, frágil e pesada, estava presa por meio de fitas amarelas – as quais são proibidas atualmente. Houve a necessidade de intervenção do “manager” do Scorpions e logo foram instalados os cabos de aço (obrigatórios em montagem de palcos e coberturas de grande porte). A abertura dos portões, marcada para as 16h00, em vista dos inúmors atrasos e incidentes, só foi de fato realizada às 19h30. Mas isso era o de menos, em vista do temor do público de um possível cancelamento do show.

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Após todos os membros de nosssa equipe terem chegado, pudemos nos dirigir ao backstage do show. Lá encontramos em um dos camarins – que por sinal era o camarim errado, pois a produção do evento não sabia onde alojar a banda de abertura e seus equipamentos – todos os membros do Tierramystica. Pudemos realizar nossa entrevista sem maiores problemas com Gui Antonioli, vocalista e percussionista do grupo (o conteúdo da entrevista será publicado em outro post, aguardem); os integrantes aparentavam um nível de tensão sobrenatural. Conforme Alexandre nos disse, a banda não conseguiu passar o som à tarde. Logo, por volta das 20h00, uma hora antes de se iniciarem os shows, em meio a toda aquela balbúrdia e técnicos da Prime (a produtora do show em Curitiba) tentando ainda fixar as estruturas do telão, da iluminação e do som, os técnicos do Scorpions começaram a passar o som. Às 20h50, após o término dos testes, veio a bomba ao camarim do Tierramystica: eles teriam 40 minutos pra passar o seu som, se apresentar (para um público já cansado e impaciente) e retirar seus equipamentos do palco para que o Scorpions subisse na sequência, provavelmente algo impossível de ser executado (no mínimo com qualidade). Era isso ou o Scorpions cancelaria de vez o show. Após uma breve reunião a portas fechadas, tomou-se a decisão: não haveria banda de abertura – uma notícia que pessoalmente me deixou bastante desanimado, pois já fazia algum tempo que gostaria de ver uma apresentação ao vivo deles.

Em torno de 22h10, com 40 minutos de atraso, o Scorpions subiu ao palco do Expotrade Pinhais, para êxtase geral; contudo, após a aparição enérgica do baterista James Kottak e o som da primeira nota de Sting In The Tail, percebe-se que o que há é apenas o som da bateria de Kottak e, ao som de vaias e gritos enfurecidos da platéia, Klaus Meine segue cantando – como que para si mesmo – até o final da música. Apesar do som ainda bastante falho, o vocalista consegue proferir algumas palavras e diz que “Apesar de todos os atrasos e problemas, eles irão tocar”, para alívio total do público. Seguiram-se as faixas Make It Real, Bad Boys Running Wild e The Zoo ainda com bastantes problemas no som e no telão.

A partir de Coast To Coast, a galera se empolgou de vez – principalmente quando o vocalista ensaiou uns riffs de guitarra junto com os guitarristas Rudolf Schenker e Matthias Jabs e o baixista Paweł Mąciwoda. Apesar do som MONO que envolvia a atmosfera do lugar, as músicas conseguiram embalar toda a multidão, principalmente pela extraordinária presença de palco de todos os membros da banda.

Seguiram Loving You Sunday Morning, The Best is yet to Come, esta muito cantada pelos fãs,  e Holiday. A seguir, Jabs e Schenker fizeram uma versão acústica de Send me An Angel, trazendo todos os membros – inclusive o baterista James Kottak, improvisando com chocalho e uma cadeira – para a passarela do palco, esta que proporcionou um grande contato do público da pista comum com os integrantes do Scorpions. A partir daí seguiram as faixas Tease Me Please Me e Dynamite e o Kottak Attack, o solo de bateria que trouxe uma empolgação muito forte ao público presente: James, além de apresentar um solo com bastante desenvoltura e qualidade técnica, interagiu muito com os fãs, tendo o apoio de um vídeo animado – apresentado no telão – o qual trazia interpretações do próprio Kottak das principais capas dos álbuns do Scorpions; no clímax de seu solo, arrancou a camiseta e mostrou uma tatuagem, que cobria suas costas – a qual dizia “Rock & Roll Forever”. Seguiram-se a forte e característica Blackout, com seus riffs no mínimo regozijantes pra qualquer amante de um bom Hard’n’Heavy, a virtuosa Six String Sting (o solo de Matthias Jabs, executado há anos em todos os shows do Scorpions) e a energética Big City Nights. Fez-se uma pequena pausa e, ao som de mais de 20 mil pessoas gritando “Scorpions”, a banda voltou ao palco pra fechar a noite de modo magnífico executando as épicas Still Loving You e Rock You Like a Hurricane, fazendo todos que estavam ali dissolverem-se numa atmosfera de êxtase, regozijo e sensação de trabalho cumprido, esquecendo todos os problemas que envolveram a produção do show.

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Apesar de todas as adversidades, posso dizer com toda a convicção que o show do Scorpions valeu cada centavo do ingresso, não importando estar na área vip ou na área comum, pois com mais de 45 anos de estrada,  o Scorpions deu uma aula de presença de palco, simpatia e energia. Klaus Meine, com seu timbre e sua potência inconfundíveis, Rudolf e Matthias sempre muito entrosados entre si, seja em virtuosismo, velocidade ou peso, mostraram que, apesar das quatro décadas de carreira e do encerramento programado para os próximos dois ou três anos, têm ainda muita disposição pra levar a força do Rock’n’Roll aonde quiserem.  Quem viu, com certeza não se esquecerá tão cedo das quase duas horas de show, pois foi um enorme privilégio fazer parte da última turnê daquela que é uma das principais bandas ainda em atividade no mundo, tanto por sua prolífica e diversificada discografia, quanto por seus quase épicos shows.

Bom, com relação à produção do show, o exemplo fica para que não se cometam tantos erros banais nas próximas oportunidades, pois a próxima banda pode não ter a mesma paciência ou descontração que o Scorpions e quem sai prejudicado é o público.

Pra encerrar, faço uma pequena crítica em especial ao público da área vip: Muitas pessoas, ao invés de curtir o show, passaram grande parte do tempo filmando o evento. Não seria mais saudável curtir a apresentação em sua plenitude? Vídeos de apresentações do Scorpions se encontram aos montes em livrarias, lojas de música ou até mesmo na internet.