Kreator: entrevista para o Metal Shrine

O blog sueco Metal Shrine publicou uma entrevista recente com o vocalista e guitarrista Mille Petrozza. Na conversa, o frontman do Kreator fala sobre assuntos diversos, como atualidades, comportamento dos fãs de metal via web, como nascem as letras do Kreator, além de comentar a capa, o clipe e, claro, o conceito essencial de “Phantom Antichrist.” Confira a entrevista feita por Niclas Müller-Hansen, traduzida especialmente para a Ilha do Metal:

Mille Petrozza. Imagem: Heilemania

Metal Shrine: Boa noite. (em alemão)

Mille Petrozza: Boa noite. Tudo bom? (em alemão)

MS: Sim, está tudo bem (em alemão)

MP: Que bom. (em alemão)

MS: É todo o alemão que eu sei, apesar de ter tido aulas por 6 anos.

MP: É melhor do que o meu sueco (risos)

MS: Então, vamos direto ao ponto. De onde surgiu o título “Phantom Antichrist?”

MP: É uma metáfora. Foi inspirado por certas coisas que li na mídia, especialmente a morte de Osama Bin Laden, que foi morto e jogado no oceano por motivos religiosos, ainda que não haja tais coisas, como um enterro no mar, na religião Muçulmana. É uma metáfora para controle e para o estado do mundo em nossos dias basicamente, e também é assunto da maioria das músicas. Você tem seus típicos assuntos do Kreator onde eu falo sobre injustiça, guerra, horror, dor e opressão, é claro.

MS: É um mundo insano. Em seu país, como estão as coisas em relação à antiga Alemanha Oriental como um todo? As coisas estão ficando melhores naquela parte do país?

MP: É uma questão delicada de se responder. Quero dizer, gostaria de dizer que sim, mas não sou especialista nessas coisas. Posso dizer com certeza que ficou melhor em algumas partes e pior em outras. Há lugares na parte oriental da Alemanha onde não tem nada e todo mundo lá, quando completa 18 anos, sai de lá e passa a morar em Berlim ou talvez em algum outro lugar da parte ocidental do país. Não há trabalho lá. Claro que é muito bom ter acesso à parte oriental da Alemanha, que não era o caso quando o Muro de Berlim ainda estava lá, assim como é muito bom que as pessoas que vivem na Alemanha Oriental possam ir onde elas quiserem, mas ainda há um monte de coisas que é necessário trabalhar no futuro.

MS: E a artwork do álbum? A primeira coisa que me veio à mente quando eu vi, foi o filme “The Thing” (no Brasil, “O Enigma de Outro Mundo”). Você já o viu?

MP: A versão antiga ou a nova?

MS: A antiga, a de John Carpenter.

MP: Sim.

MS: Lembrou-me um pouco. Quem fez a arte?

MP: Foi um artista americano, Wes Benscoter, que já trabalhou com Black Sabbath, Dio, Slayer, Autopsy e muitos outros. Ele é um típico artista de horror no sentido gráfico da palavra. É uma pintura e ele faz pinturas com aerógrafo. Não é seu estilo típico. Atualmente, parece que um monte de bandas estão usando arte produzida em Photoshop e nós fizemos isso nos últimos álbuns também, mas quisemos uma pintura clássica e uma arte de verdade.

MS: Realmente, ela chama muito a atenção.

MP: Sim, é um tanto perturbadora, não é?

MS: É sim. Toda vez que você compõe um novo álbum e tem que fazer a arte, o que você dá ao artista para que ele faça o trabalho? É o título mesmo ou você diz a ele os assuntos que as músicas tratarão? Como geralmente isso funciona?

MP: No caso de Wes Benscoter, dei a ele o título de algumas músicas. O artista com o qual trabalhei para a capa de “Hordes of Chaos” quis uma demo das músicas. Wes só quis os títulos de algumas músicas e isso funcionou com ele. Eu dei a ele quatro ou cinco que já estavam prontas na ocasião e acho que falei a ele que o título seria “Phantom Antichrist”, e falei que eu queria uma arte apocalíptica e semelhante a um pesadelo e foi isso. Tudo feito por e-mail. Nunca falei com Wes pelo telefone…talvez uma vez logo no início. Basicamente, ele sabe o que está fazendo. Acho que o primeiro esboço a lápis ele que enviou já era muito bom e eu estava tipo “Sim, vá em frente e faça a arte!”.

MS: Você mencionou que é uma pintura. Você tem o original?

MP: Não.

MS: Que chato.

MP: (risos) Lembrei. (risos) Podemos usá-la, mas não ficamos com o original.

MS: E o vídeo? Parece que você gastou uma grana nele. É um vídeo muito bom!

MP: Minha opinião é a que, se você quer fazer um vídeo, você tem que fazer bem feito, ou então não faça. Em nossa época, talvez não seja mais necessário fazer vídeos. Para mim, é uma forma de arte e é sempre empolgante. Faz sentido pra mim. Ainda há um monte de canais de TV na Alemanha que passam e alguns canais na América do Sul e até mesmo na América do Norte. Ainda existem alguns canais que passam clipes de metal. Não é dinheiro jogado pela janela, mas é claro que a maioria das pessoas assiste no Youtube, mas acho que é uma ótima ferramenta de promoção e também uma ótima forma de arte, em minha opinião.

MS: Um videoclipe como esse, quanto dele foi sua ideia e quanto foi a ideia do diretor?

MP: Basicamente, toda a ideia foi do diretor. Enviei a ele alguns rascunhos de roteiro e então ele chegou com seu próprio roteiro e ficou bom. O roteiro que eu tinha era um pouco diferente, mas foi tudo ideia dele. Enviei a letra, eu acho. A letra que eles queriam e acho que fizeram um ótimo trabalho. É espetacular e não um vídeo amador ou coisa do tipo.

MS: Essas máscaras de gás old school são sempre bem assustadoras.

MP: Eu sei (risos). Acho que ainda é algum trauma oitentista e uma visão de pesadelo que todos nós temos.  Dá-nos uma associação de terror e do apocalipse. É um pouco perturbador se você pensar nisso, mas é também o que gosto nisso. A arte da capa e a música em si giram em torno disso de forma satisfatória.

MS: Com certeza. Como foi trabalhar com Jens Bogren e foi algo que você decidiu logo no início? O que fez você trabalhar com ele?

MP: Bem, nós estávamos basicamente procurando um produtor novo e havia um monte de gente que eu tinha em mente, mas um amigo meu que trabalhou com Jens, Nick, do Paradise Lost, recomendou Jens ainda em 2009. Ele falou tipo “você tem que conhecê-lo, ele é ótimo!” e conheci o álbum produzido por ele, e eu realmente curti muito e achei que soou muito bem e que era uma gravação bem orgânica, então quando eu falei com Jens pela primeira vez ao telefone, ou era para eu trabalhar com ele ou eu não faria, mas eu tive boas impressões dele e a coisa mais importante, se você trabalha com alguém para a produção, é que o fato de você gostar dessa pessoa e quando ele faz uma sugestão, você tem respeito por ele e ele tem respeito pela banda. Eu realmente não ponderei muito sobre trabalhar com Jens porque tive boas impressões a respeito do cara. Ele é headbanger e conhece muito sobre música. Quando enviei a ele a primeira demo, ele não ficou tipo “Oh, isso é lindo!”, ele foi muito crítico, o que eu achei ótimo. Ele nunca foi muito entusiasta, mas se ele gostava de algo, ele ficava tipo “Yeah!”, e se não gostava, fazia melhor.  Para mim, foi o produtor perfeito e tivemos momentos muito bons. A Suécia é muito legal para gravar. As pessoas foram muito legais e foi uma vivência muito legal em Örebro. Uma linda cidadezinha. Não havia muito o que fazer lá, mas se saíamos, sempre era legal. Há um monte de noites excelentes que tivemos lá e foi muito bom.

MS: Mas você ainda sente que precisa de um produtor?

MP: Sim, com certeza. Em minha opinião, existem pouquíssimas bandas que podem se produzir sem perder o foco. Quero dizer, você pode focar nas coisas, mas algumas vezes você…sabe, quando você está em estúdio, você fica muito emocional com sua música e acho que alguém do lado de fora é sempre mais crítico. Se eu fosse gravar meu próprio álbum, não só seria mais trabalho, como também eu não saberia se ficaria melhor ou não. Eu confio pessoas, confiei em Jens e confiei nas pessoas com quem trabalhei no passado então, sim, precisamos de um produtor. Sempre fizemos com um produtor. Algumas vezes tivemos produtores que foram excelentes e outras que foram normais, mas sempre era uma experiência ou outra. Às vezes era uma experiência ruim, mas na maioria das vezes foram boas. Você sempre aprende alguma coisa.

MS: Você está na capa da edição mais recente da revista Close-Up Magazine na Suécia e parece que você está rastejando para fora de uma tumba, mas quais foram as vezes em que aconteceu do fotógrafo chegar com você com alguma ideia realmente bizarra? Aconteceu alguma vez que você disse “Não, não vou fazer isso”?

MP: Nesse caso particular a fotógrafa foi maravilhosa. Ela teve uma grande ideia para essa tumba e me mostrou um monte de fotos teste que ela fez e foi a mesma coisa lá, você tem que confiar no fotógrafo e nesse caso foi muito, muito bom. Tivemos ideias ridículas no passado, lógico, fizemos isso por algum tempo. A pior foi essa. Eu pensei que era uma boa ideia no começo, mas havia um fotógrafo que nos colocou em um aquário bem grande. Ele disse: “Se vocês entrarem lá vai soar bem bizarro. Vocês vão ficar debaixo de água e vai ser assustador.”. Tudo isso fazia com que parecêssemos com uns…eu não sei… parecidos com algum cadáver que você tirou da água, e as nossas cabeças estavam quase explodindo. Estávamos com enormes cabeças e parecia realmente uma merda e foi muito difícil estar neste tanque debaixo de água. Foi estressante e não valeu a pena. Às vezes você tem que tentar coisas também, mas definitivamente era algo sobre o qual se deveria conversar.

Close-Up Magazine edição 141. Imagem: Linda Åkerberg.

MS: Você já pensou em fazer música em alemão, como faz o Rammstein?

MP: Sim, já pensei, mas nunca levei a ideia adiante. De um ponto de vista artístico, seria como começar do zero. Escrevi músicas em inglês há não sei quantos anos e mudar para o alemão seria algo do tipo “ok, nunca fiz isso, será que vai ficar bom?” e sou muito autocrítico quando se fala de letras e é complicado. Pra mim, não faz sentido artisticamente. Um monte de gente aqui na Alemanha começou a cantar em alemão hoje em dia, porque acham que vai vender mais, mas essa não deveria ser a motivação para tal. Nunca achei que era necessário cantar em alemão. Se eu tiver alguma ideia para uma música em alemão e eu achar que será legal, então eu farei, mas nesse momento, quando começo a escrever músicas, começo imediatamente a pensar em inglês.

MS: Como você tem feito isso por tanto tempo, é mais fácil ou mais difícil surgirem boas letras?

MP: Não sou muito paciente quando se fala de letra. Escrever letras é uma coisa totalmente diferente. Com música, você sabe imediatamente se algo funciona ou não. Com letras, elas se desenvolvem a partir do momento em que você começa a escrever as primeiras palavras para baixo e você tenta cantá-las com a música. Você não é muito crítico, porque você só precisa de algumas palavras e então você continua reescrevendo e reescrevendo as letras e eles ganham vida depois de um tempo. De repente, tudo faz sentido. Primeiro você só escreve algumas palavras que soam bem e então você deve colocar sentido nelas e é um longo processo. A única coisa que vejo nesses dias é que eu quero letras que sejam perfeitas desde a concepção, mas nunca é o caso. Sou muito impaciente quando se fala de letras e tenho que admitir que escrever é muito difícil. Provavelmente a parte mais difícil pra mim, não consigo gostar da música se não gosto da letra. Claro que há excelentes músicas cujas letras nada significam, sei disso. Algumas vezes acontece e as palavras funcionam com a música. Acho que Ozzy Osbourne disse isso uma vez, ainda que ele não saiba exatamente em qual música do Black Sabbath em específico (Fairies wear Boots), mas ela é legal. As melhores palavras soam como se você estivesse cantando, a música fica mais forte. É um longo processo e sou mais paciente com a música do que com as letras.

MS: Alguma vez aconteceu de você escrever algo e você perceber que já escreveu sobre isso há 10 anos ou que você usou letras semelhantes antes?

MP: Muitas vezes. Então você tem que reescrever a música inteira, o que não torna a sua vida muito fácil (risos). Não começa com o título, começa com as palavras. Veja uma banda como o Manowar! Não tenho nada do Manowar, mas se você pegar as letras, o vocabulário é muito limitado. Não que eu esteja dizendo que meu vocabulário é amplo ou algo assim. Também tenho as palavras que uso todo o tempo, como terror, guerra, dor, morte… Todas elas foram utilizadas e eu acho que você tem que ser convincente. Até mesmo no novo album há um monte de músicas, como a que leva “Death to the World” como título, que é um bom título, mas soa como se eu já tivesse escutado isso antes e provavelmente um monte de bandas têm algo nessa linha. Então você joga no Google e você vê que o Nightwish tem uma música chamada “Death to the World” e você pensa “Ainda posso usar isso? Será que é legal?”, mas você deve fazer sua própria música. Há muitas músicas que têm os mesmos nomes e você não consegue ter sempre um álbum cujos títulos das faixas nunca ninguém usou. Mas acho que uma música com o título “Phantom Antichrist”, com duas palavras combinadas e que não fazem muito sentido, é uma faixa título que ninguém tem. É também uma música muito controversa. Quando colocamos a faixa título no nosso site official, muitas pessoas disseram “Isso é horrível, cara! Que p* é essa?” Sempre tem gente reclamando.

MS: É algo que tem acontecido muito ultimamente, muitos músicos de metal falando sobre pessoas escrevendo comentários negativos. É muito fácil hoje em dia, sentar em casa em frente ao computador e escrever coisas negativas, e não ser criativo e produzir.

MP: Sim, e é algo que não levo a sério. Claro que nós já passamos por isso muitas vezes e sei que debater é sempre pior. No metal, ainda é normal. As pessoas são muito apaixonadas por metal, então é normal para mim. Por outro lado, é estranho. A realidade na internet é muito diferente do mundo lá fora. Nunca escutei ninguém, em um show ou em qualquer outro lugar, dizer algo assim na minha frente. Tão fácil quanto é para as pessoas escreverem coisas negativas, é também muito difícil realmente dizer isso a alguém. Tanto faz. Eu acho que é apenas uma coisa humana, quando você tem muito tempo em suas mãos e você começar a reclamar sobre as coisas. Pessoas que não fazem muita coisa têm tempo para reclamar.

MS: Certo! Uma pergunta final, seu sobrenome é italiano, você nasceu na Alemanha ou na Itália?

MP: Nasci na Alemanha. Meu pai veio da Itália no fim dos anos 60. Eu nem mesmo falo italiano, mas tenho meu sobrenome italiano, é claro

MS: Você já voltou ao lugar de onde seu pai é natural?

MP: Quando garoto, sim. Estive lá com a banda muitas vezes e é ótimo ir lá e é bom que as pessoas não esquecem que você tem raízes italianas. Isso me faz sentir em casa.

MS: Legal! Bem, Estou ansioso para ver vocês ao vivo.

MP: Ah sim, estaremos por aí em novembro ou dezembro.

MS: Será a turnê com o Accept?

MP: Não, será com o Morbid Angel e o Nile.

MS: Legal!

MP: Sim, uma ótima combinação, não acha?

MS: Totalmente! Muito obrigado, Mille, e tenha uma boa noite!  

MP: Você também, cara! Se cuida!