Decapitated: “Não tenho problemas com a Igreja, minha música apenas fala sobre humanos”

A enxurrada de atrações internacionais tem proporcionado aos fãs brasileiros a verdadeira oportunidade de conferir muitas bandas que estavam faz tempo naquela listinha de shows imperdíveis. Agora chegou a vez dos poloneses do Decapitated. Mestres do technical death metal, o grupo tem apresentações agendadas em Hortolândia e São Paulo para promover o álbum “Carnival is Forever”. Na entrevista abaixo, o guitarrista Waclaw “Vogg” Kieltyka fala sobre a expectativa da banda em tocar pela primeira vez no país, comenta o trágico acidente de 2007, a repercussão do novo disco, o novo lineup e frisa que está longe de ser polêmica.

Essa é a primeira vez que a banda vem ao Brasil. Qual a expectativa de vocês para os shows por aqui?
Vogg: Hey, essa será a primeira turnê mesmo na América do Sul. Estamos muito felizes e animados com essa viagem. O que posso dizer, depois de muitos anos finalmente estamos indo tocar no seu país. Tenho muitos amigos aí e espero encontrar com todos eles e também estou certo de que os shows serão incríveis. Espero por muita gente, ótimos shows e claro, voltar com grandes lembranças do Brasil.

“Carnival Is Forever” foi o primeiro álbum do Decapited com a nova formação. Como foi o processo de gravação e composição de um novo álbum após o período conturbado que a banda viveu?
Vogg: Isso foi diferente, totalmente diferente. Sou o único membro original da banda atualmente, então com os novos músicos eu tive que aprender a fazer músicas de um novo jeito. Eu tinha muito material feito com Witek, então eu terminei isso com Krimh e descobri que Kerim é muito rápido com arranjos. Portanto, mesmo se eu trabalhei com um baterista diferente isso foi legal, eu não esperava que o processo de composição fosse ser tão fácil.

Qual foi a principal inspiração para a composição de “Carnival Is Forever”?
Vogg: Difícil dizer. Muitas coisas me inspiram para fazer riffs. A música que eu escuto, meu ambiente, minhas experiências, etc. Eu estava em depressão, porque perdi meu irmão e acredito que a atmosfera desse álbum está conectada com meus sentimentos.

Como vocês sentiram as críticas vindas dos fãs e da mídia em relação à “Carnival Is Forever”?
Vogg: Foi com certeza interessante ler as opiniões sobre esse álbum, porque ele é diferente de qualquer outro que lançamos no passado. Então as pessoas não podiam adIvinhar o que seria esse álbum. Algumas pessoas gostaram, outras não, mas isso é sempre assim, de qualquer forma eu li muitas resenhas favoráveis e muitos bons músicos me disseram que gostaram, então estou feliz. E, pessoalmente, eu amo esse álbum.

O Decapitated a cada álbum se tornava mais técnico e mais complexo em suas composições. Porém em “Carnival is Foverer” o que se vê é uma volta aos primeiros trabalhos da banda, com músicas mais diretas e não tão complexas, mas ainda mantendo a técnica. Vocês concordam como essa visão? Como vocês descreveriam o álbum?
Vogg: Sim, eu concordo. De fato, “Carnival” é um pouco mais fácil, comparado, por exemplo, com “Organic” que é mais direto, mas é por isso que soa grande quando o tocamos ao vivo. Quero fazer esse álbum ser calmo, fácil e energético. Ele é como algo que eu não estava apreensivo para tocar, o que eu sinto é que você pode ouvi-lo pela primeira vez com a mente aberta, canções longas, como a faixa-título, mas ainda esse álbum é bem rápido e agressivo. Eu o acho interessante, porque cada música é diferente, e você pode achar nele muitas formas diferentes de não tocar sempre a mesma merda!

Este ano vocês lançaram o videoclipe da música “Pest”, produzido por Grupa 13 e dirigido por Dariusz Szermanowicz. Por que essa foi escolhida a primeira faixa a ser single? E como foram as gravações do vídeo?
Vogg: Apenas decidimos que “Pest” seria a melhor música para o primeiro videoclipe, essa é uma música do caralho, espontânea, energética e atmosférica. Essa música descreve um pouco do que você pode achar no álbum todo. Gravamos o vídeo em um dia, em Wroclaw, nós todos estávamos de ressaca, porque um dia antes bebemos e provamos algumas cervejas locais… Então isso foi bem difícil de se fazer desta vez. Mas agora temos um novo vídeo para acrescentar, com a música “Homo Sum” que é totalmente diferente, é em preto e branco, e é incrível!

Após o acidente que ocorreu em 2007, muitos e até mesmo a banda tinha incertezas sobre seu futuro. Como é para vocês lançar um novo álbum e em estar em turnê novamente após tantos anos sem tocar?
Vogg: Isso foi há muitos anos. Antes de eu voltar com o Decapitated, eu participei do Vader, fiz 150 shows com eles. Então não estava nos palcos por dois anos após o acidente, foi bom estar em turnê de novo, eu amo isso. As vezes, me sinto um pouco estranho porque tenho novas pessoas a bordo, mas sei que não posso fazer nada sobre isso. Não posso voltar atrás no tempo, então… Estou feliz pelo que tenho e festejo cada minuto no palco, no ônibus de viagem, etc.

Como se deu a escolha dos novos membros? Vocês acreditam que eles sofram uma pressão ainda maior em substituir Vitek e Covan após sua trágica saída da banda?
Vogg: Apenas escolhi esses caras porque eles são bons músicos e podem tocar de uma maneira diferente do que Witek e Covan, mas ainda com qualidade. Nos sentimos bem no palco, especialmente depois de dois anos tocando juntos, e está ficando melhor e melhor a cada show que fazemos.

O que você fez nesse período em que esteve afastado da música?
Vogg: Estava trabalhando numa loja de instrumentos musicais em Cracóvia. Vendendo equipamentos de guitarra, etc. Foi um bom tempo, fiz novos amigos lá, e me ajudou muito depois da tragédia. Então eu entrei para o Vader e gastei algum tempo com eles, o que também foi uma experiência muito legal. Foi então que comecei a procurar por novos membros e decidi continuar com o Decapitated.

Em janeiro deste ano, os pais do ex-vocalista Covan foram a TV polonesa pedir ajuda para manter um tratamento, que tem tido efeito em seu filho. Vocês ainda mantém contato com Covan ou sua família? Têm acompanhado seu estado de saúde após o acidente?
Vogg: Claro que tenho contato com ele e sua família. O vejo todo mês, às vezes, toda semana. Nós moramos na mesma cidade. Ele precisa de ajuda, porque ainda está numa má condição, você pode ir em www.wakeupcovan.com e lhe enviar algum dinheiro via paypal se quiser ajudá-lo. Desde já agradeço a todos que puderem ajudar.

A Polônia tem sido vista como um dos países com leis e censura mais severas em relação a certos estilos musicais. O Black Metal, por exemplo, tem sofrido muito com esse preconceito instaurado na sociedade polonesa, mas ao mesmo tempo a impressão que tenho é de que Nergal se tornou muito popular por lá ao longo dos anos. Como vocês vêem essa situação e a que acham que ela se deve?
Vogg: Não tive nenhuma situação assim durante minha carreira, não somos uma banda satânica e não tocamos qualquer situação religiosa, então ninguém teve problemas com isso. Falamos sobre humanos em nossas letras. Sei que isso é um saco para Behemoth e Vader, por exemplo, mas por um outro lado isso é bom para promover, políticos e religiosos falando sobre você em todos os jornais, essa é a razão pela qual Nergal é tão popular na Polônia, todo mundo o conhece.

As bandas de death metal acabam passando pelo mesmo de situação?
Vogg: Como disse, na verdade não. Não tenho problemas com ninguém. Toco minha música e não dou a mínima para mais nada.

Muito obrigada pela entrevista, e eu gostaria que vocês deixassem um recado aos fãs brasileiros.
Vogg: Brasil, nós estamos chegando! O Decapitated vai chutar a sua bunda e teremos bons momentos! Vejo vocês em breve!

FONTE: The Ultimate Music – Press