Ecliptyka: “Rotular nosso som sempre foi uma tarefa muito complicada para nós”

 

Com mais de dez anos de atividade, o Ecliptyka, banda natural de Jundiaí/SP, é um exemplo de perseverança. Demorou algum tempo até que A Tale of Decadence, seu primeiro trabalho, fosse concebido, mas, uma vez lançado, escancarou portas e oportunidades. A banda já apresenta um bom currículo, dividindo o palco com nomes internacionais do estilo. A vocalista Helena Martins nos conta detalhes do início, dos desafios em busca de reconhecimento e do aprendizado com músicos experientes, ajudando a moldar sua identidade sonora, variante entre o alicerce do metal tradicional ao minimalismo do prog. Acompanhe:

A Ilha do Metal: Como se deu o início do Ecliptyka?

Helena Martins: A banda começou com os primos Guilherme Bollini e Rodrigo Mathias pela admiração adolescente, na época, de bandas consagradas de metal, como Iron Maiden e Metallica. A ideia era conquistar o mundo através de composições próprias com letras agressivas! Mais tarde a ideia evoluiu e passou a ser não só mais um hobby, mas sim uma meta pessoal e profissional. O trabalho sempre foi muito sério e, mesmo no começo, colocávamos metas difíceis de serem alcançadas para impulsionar cada vez mais a banda. O reconhecimento foi e está sendo alcançado com o tempo e na medida em que mais pessoas vão conhecendo nossa música. É um processo contínuo de nossa parte em difundir nosso trabalho e tentar fazer com que as pessoas analisem e se identifiquem com a gente.

AIDM: Fale um pouco sobre as influências…

HM: No que se diz a respeito de influências, nós passamos por algumas fases. No começo da banda, o que mais nos influenciava eram bandas mais tradicionais, como Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath. Depois de um tempo, passamos a ouvir outras bandas mais puxadas para o melódico, como Stratovarius, Helloween, Sonata Arctica, Nightwish, etc.  E posteriormente, entramos numa fase prog, na qual escutávamos muito Dream Theater e Symphony X . Hoje em dia, ouvimos de tudo, e posso dizer que foi essa ‘’mistureba’’ de estilos que fez surgir a Ecliptyka atual. Mas com certeza temos bastante influência de estilos mais atuais, como o Metal Core de bandas como Killswitch Engage, Soilwork, In Flames e Deadlock.

AIDM: Se você fosse descrever a música do Ecliptyka para um desconhecedor do som do Ecliptyka, como seria?

HM: Essa é sempre uma questão muito difícil para se responder, justamente por termos uma mistura de influências, como disse anteriormente. Não conseguimos dizer simplesmente ‘’tocamos isso ‘’ ou ‘’tocamos aquilo’’. Rotular nosso som sempre foi uma tarefa muito complicada para nós. Mas quando alguém me pergunta o que nós tocamos, eu falo algo do tipo “Metal com vocal feminino não-lírico, sem linhas de teclado muito evidentes, mas com pegada e muito riff de guitarra!” (risos).

AIDM: A banda foi formada em 1998, mas o primeiro disco completo de estúdio foi lançado somente esse ano. Por que demorou tanto para o lançamento? Quais dificuldades você vê em ter uma banda de metal?

HM: Quando começamos, éramos adolescentes aprendendo a tocar ainda e se divertindo muito com covers cada vez mais difíceis de serem tocados. Com o tempo, começamos a compor nossas primeiras músicas usando toda a influência que tínhamos do metal melódico, power metal e prog metal. Dessas primeiras composições surgiu a demo “The First Petal Falls”. Esse foi o nosso primeiro passo e com certeza um dos mais importantes, que marcou o começo de tudo para nós. Antes disso, sabíamos apenas que queríamos fazer tudo aquilo dar certo, mas não sabíamos como. ‘’The First Petal Falls’’ nos deu uma ideia de como prosseguir dali pra frente. Com tudo que conquistamos a partir da demo, “A Tale of Decadence” nasceu com uma Ecliptyka muito segura sobre seu estilo de som e com letras que refletem exatamente o pensamento de todos os integrantes. Nós sempre falamos que esse longo período entre a demo e o álbum foi um tempo necessário ao amadurecimento da banda. Aprendemos muito, pesquisamos muito, batalhamos muito, e, principalmente, achamos as pessoas certas para finalmente fazer esse nosso primeiro álbum, pois passamos por algumas mudanças na formação.

 

AIDM: O disco “A Tale of decadence” tem a participação de Danilo Herbert (Mindflow) e Marcelo Carvalho (Hateful). Como essas participações aconteceram?

HM: O Marcelo é nosso amigo há bastante tempo. Nós e o Hateful tocamos diversas vezes juntos, estávamos sempre na mesma batalha por reconhecimento e espaço.  E sempre admiramos a qualidade do trabalho dele na banda, tanto como vocalista quanto guitarrista. Ele foi a primeira pessoa que pensamos em convidar para fazer uma participação no CD, e ele topou na mesma hora! Com o Danilo não foi muito diferente.  Nós conhecíamos o trabalho do Mindflow há bastante tempo, e em 2006 tocamos juntos pela primeira vez. Na época, não tínhamos nem a demo ainda, e posso dizer que eles foram uma fonte importantíssima de inspiração para nós, tanto pela qualidade do trabalho deles quanto pelo profissionalismo e integridade de cada um.  Durante o tempo, fomos sempre ‘’trocando figurinhas’’ e eles sempre nos ajudaram muito. Não tínhamos dúvida que queríamos o Danilo no nosso CD! Quando fizemos o convite a ele, rolou alguns desencontros e quase que a participação dele não aconteceu, mas de última hora conseguimos conversar e ele topou!  Com certeza, o Danilo deu toque especialíssimo em Splendid Cradle e Berço Esplêndido, e o Marcelo deu um ‘’punch’’ extra que estávamos querendo para We Are The Same. Somos muito agradecidos a eles pelas participações e temos muito orgulho em tê-los em nosso CD.

AIDM: Como foi a passagem da banda pela Europa, em 2008?

HM: Foi ótima! Um dos momentos mais marcantes da banda, com certeza! Fomos muito bem recebidos por todos, tanto pelo público e organizadores quanto pela crítica, e recebemos diversos convites para voltar a tocar por lá. Sempre falamos que foi durante essa turnê que realmente constatamos que queremos fazer isso pro resto de nossas vidas. (risos)

AIDM: Conte-nos sobre a experiência de ser banda de abertura de bandas internacionais como o Delain, Tarja e The Agonist…

HM: Foi maravilhoso! Esses três shows nos abriram portas importantíssimas, e conseguimos atingir um público muito maior! Ser banda de abertura nunca é uma tarefa muito fácil, muitas das pessoas que estão ali só querem ver a banda principal e ponto. Não estão nem aí se há alguma outra banda batalhando por um espacinho no meio. É compreensível. Costumo falar que, de modo geral,  quem está no público não tem o dever de saber se aquela banda de abertura batalhou para estar ali, se passou por ‘’perrengues’’, etc. Eles querem ter uma noite bacana, com som bom e de qualidade. E é o que tentamos passar para eles: o nosso melhor, sempre! Se alguém ali não curtir, paciência, é normal, gosto é gosto. É óbvio que não agradaremos a todos, isso é impossível.  Nem bandas grandes e tradicionais agradam a todos.  Mas sentimos que esses três shows valeram muito a pena para a Ecliptyka!  Conquistamos diversos novos fãs e ótimas resenhas!

AIDM: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória enquanto vocalista de metal..

HM: Na verdade, eu nunca tive essa pretensão. Até 2002, eu cantava em corais e o máximo de Metal que eu conhecia era Iron Maiden, Metallica e Angra. Depois que entrei pra Ecliptyka, me aprofundei mais no estilo e fui achando meu próprio estilo de cantar.  Naquela época, as bandas com vocal feminino não eram tão famosas, e as que faziam sucesso eram Nightwish e outras muito parecidas. Mas nós nunca quisemos ser uma banda gótica, e eu queria fugir do vocal lírico, apesar de ter aprendido a cantar dentro dessa linha.  Queríamos fazer algo diferente. Com o tempo foram surgindo outras bandas com vocal feminino com estilos diferentes, minhas influências pessoais foram crescendo e consegui estabelecer uma identidade da minha voz na banda.

AIDM: Indo além, conte quais são os desafios em ser uma presença feminina no rock pesado, fale do aprendizado, o que superou, e qual a mensagem que você passa para as meninas que estão começando a trajetória musical.

HM: Quando eu comecei a cantar na Ecliptyka, não existiam muitas bandas com vocal feminino. Pelo menos, elas não eram tão famosas. E, por conta disso, eu sofri muito preconceito por parte do público machista. Ouvia coisas do tipo ”Onde já viu, uma mina querendo cantar metal?” (risos) . Hoje já está muito mais tranquilo. Preconceito ainda rola um pouco, principalmente nos shows. Mas creio que isso é algo que se deva ter na cabeça quando você é uma mulher que canta heavy metal: preconceito sempre existirá e ponto. A questão é saber relevar esse tipo de coisa. Também já aprendi a ignorar comentários dizendo que sou bonita e por isso a banda é ”boa”. Não gosto desse tipo de coisa, pois se eu quisesse ser reconhecida pela minha aparência eu teria me tornado modelo. Mas creio que esse tipo de coisa role com toda banda de vocal feminino. Sinto que as coisas seriam mais fáceis sim se eu fosse homem, mas tudo bem, eu gosto de desafios. A mensagem que eu deixo às meninas que querem começar a cantar Metal é: seja diferente! O mundo já tem muitas bandas com vocal feminino, e bandas muito boas, por sinal! O caminho é se destacar de alguma maneira, e ter autenticidade é a chave! E não desistir, nunca! Dificuldades e obstáculos surgirão, mas podem ter certeza que nada daquilo que realmente vale a pena na vida vem fácil. Deve-se batalhar e suar muito a camisa para colhermos bons resultados.

AIDM: Para terminar, escolha três músicas para tocar na programação e fale um pouco sobre elas.

HM:  We Are The Same – a letra dessa música resume bem a idéia conceitual do CD como um todo. Ela fala de como estamos acabando com o nosso planeta e a indiferença do ser humano em relação a isso. Fala também que agir como se o ‘’problema não fosse nosso’’ não irá fazer com que as consequências desapareçam, e que nós somos todos iguais, nem melhores nem piores, e que devemos agir.

Splendid Cradle – essa música fala a respeito dos problemas que temos em nosso país, como a corrupção, descaso dos políticos e como todo esse sistema podre conseguiu cegar toda a população, a ponto de rirmos de nossa própria desgraça.

Unnatural Evolution – escolho essa música devido à maior exposição que estamos tendo agora sobre a crueldade que acontece em rodeios e touradas. Essa música fala sobre como a vida não é mais importante para nós, sobre como achamos graça e nos entretemos com a morte e sofrimento de outros seres vivos nesses eventos ridículos e covardes.