Dorsal Atlântica: Entrevista com Carlos Lopes

Uma banda como a Dorsal Atlântica dispensa apresentações. Uma das principais responsáveis por preparar o terreno para a avalanche metal que invadiria o Brasil em meados dos anos 8o, lançando sete álbuns de estúdio, entre os quais estão grandes clássicos, a banda fez história no metal brasileiro, vindo posteriormente a adormecer por mais de dez anos. Recentemente a Dorsal lançou uma campanha para gravar um novo álbum e conta com o apoio do público. Um projeto coletivo, em que a Dorsal coloca nas mãos dos fãs o poder de fazer nascer seu novo trabalho. Acompanhe a entrevista com Carlos Lopes, líder da banda, onde ele fala sobre o projeto coletivo, revela o título e a temática de cada uma das faixas, e claro, sempre incisivo, solta o verbo sem medo e sem cortes. Confira:

Claudio Lopes, Carlos Lopes e Hardcore. Imagem: Sérgio Filho

A Ilha do Metal: O Dorsal Atlântica foi uma das primeiras bandas de metal propriamente dito no Brasil. Antes dela, bandas de heavy rock já disputavam algum espaço, mas em termos de metal, pouco havia sido produzido por aqui. Além disso, havia grande dificuldade até mesmo para que vinis de bandas estrangeiras chegassem ao público, isso aliado aos anos de repressão ideológica e cultura da política militar brasileira. Como foram os primeiros contatos dos integrantes do Dorsal com o som pesado que era produzido na época? Como o metal veio até vocês?

Carlos Lopes: O metal chegou a nós através das bandas dos anos 70, como UFO e Judas Priest principalmente, pois eu nunca gostei muito da trindade Led/Purple/Sabbath. Gostava mais do Sabbath, mas quando ouvi seus LPs pela primeira vez em 1974 ou por aí, eu achei meio sonolento. O punk/new wave sim, foi o que me sacudiu, eu adorava todas as bandas da época, em 1977 como os Pistols, The Clash, The Damned, Buzzcocks, Devo, Blondie, The Jam etc… E isso antes de criarem o hardcore, o que mudou a coisa de figura. Meu reinteresse por som pesado, ocorreu com o New Wave of British Heavy Metal por volta de 1980, ou um pouquinho antes. Sempre escutei punk e new wave e quando vi que dava para tocar rock pesado sem soar hippie, me interessei pelo estilo e o que fiz foi somar meus interesses: punk e metal. E por causa disso fui execrado e chamado de louco.

AIDM: O Dorsal foi uma das bandas que alcançou maior notoriedade na cena fluminense, mas e as outras bandas sequer gravaram algo e que ficaram restritas à audição dos habitués? Nos anos iniciais de metal no Brasil, como era o underground carioca?

CL: Explico toda essa história em pormenores na biografia Guerrilha! (que faz parte da campanha do CD da Dorsal). Eu não teria como explicar essa longa história em poucas palavras, apenas posso dizer que não havia cena no Rio antes da Dorsal, nós começamos em 1981 e a cena veio depois, conosco à frente. No Brasil, apenas 3 bandas podem ser consideradas responsáveis por construírem as cenas: Dorsal, Stress e Vulcano.

AIDM: O Dorsal foi uma banda que passou por uma série de transformações em sua sonoridade, tendo Antes do Fim e Dividir e Conquistar como seus principais álbuns. Depois de anos em silêncio, o que os fãs podem esperar do novo álbum da banda, caso a arrecadação coletiva obtenha seu êxito? Seguirá a linha dos clássicos?

CL: O disco é inspirado em nossos trabalhos antigos, mas não será um disco de revival, será um disco inédito, feito com outra cabeça, pois não somos as mesmas pessoas de 1985. Entre 1985 e 1990, nem havia produtor de disco, a gente entrava no estúdio, tocava e caía fora sem qualquer ajuda ou produção. Depois eu mesmo me tornei produtor nos anos 90, ou seja, já sou outra pessoa com muita mais experiência e também muito mais loucura, pois o que ainda me move é a arte e a ousadia. O novo CD – se sair, é claro – está na minha cabeça, os timbres, a mixagem, etc. O que ele terá de diferente é que será um trabalho mais melódico mas sem ser bundão. O CD terá o punk/hardcore/thrash/metal como referência, mas será um trabalho que ousará mais, que criará algo completamente diferente, sem qualquer traço de modernidade. Não será um disco de riffs, ou de amontoados de riffs, mas um disco de canções com riffs com muita liberdade musical e respeito pelo nosso passado e respeito ao nosso público. As faixas são: Comissão da Verdade (a quem interessa?); Contenda (sobre brigas sem fim); Stalingrado (a invasão nazista à Rússia comunista); Operação Brother Sam (caso João Goulart resistisse em 1964, o Brasil seria bombardeado pelos Estados Unidos até por porta-aviões); Jango Goulart (o presidente deposto); Eu Minto, Tu Mentes, Todos Mentem (reflexão sobre a alma humana); O Retrato De Dorian Gray (sobre a mídia, a estética, sobre assessorias de imprensa, sobre fatos e fotos…); Corrupto Corruptor (óbvio: sobre o Brasil); Colonizado/Entreguista (sobre os péssimos brasileiros que só reclamam); A Invasão do Brasil (incrível depoimento do médium Chico Xavier sobre a invasão de um certo país); 168 Bpm e Imortais (a última faixa do disco é um hino escrito em homenagem aos fãs da Dorsal).

AIDM: Muitas pessoas têm criticado a atitude da arrecadação coletiva que a banda tomou para reaver suas atividades. Isso tem ligação com as suas polêmicas declarações de anos atrás. Você mudou de opinião sobre o que você falou e que deixou os fãs de metal tão chateados?

CL: As pessoas que criticam não pertencem ao meu mundo. Uma campanha de um partido de esquerda, por exemplo não deve contar com o apoio da direita e nem esperar por isso. Eu conto com os que têm afinidade conosco. Hoje quem não nos entende, amanhã fará a sua campanha para arrecadar fundos, o que não é humilhante, mas revolucionário. Quem não entende isso, prefere manter o status quo da Elite lá em cima, prefere manter o poder dos capitalistas, amam os donos dos meios de produção no topo da pirâmide social. Os críticos não querem que isso aconteça e pior não querem a Dorsal encabece a revolução, mas ela já foi feita por nós, agora tudo isso já é história. Os que não querem a revolução, e o socialismo não querem reverter a pirâmide. Mas veja bem, nunca há certo ou errado, há escolhas. Os fãs de metal não estão chateados comigo, só os que não leram minhas entrevistas com atenção. E por que não imaginar que quem está chateado comigo pode ser um corrupto que paga por show de abertura de banda internacional, você já pensou nisso? Digo e repito, nunca falei nada de mal sobre o estilo que eu ajudei a criar. Falei que eu precisava respirar, pois havia muita corrupção, muitos discos iguais, muita repetição e só business, negócios, interesses pessoais, gravadoras e produtores ceifando a vida dos artistas. Me posicionei contra a injustiça e tomei pau. Minha questão sempre foi empresarial, artística, e pessoal, nunca falei sobre a vida dos outros. Sou um artista, devo satisfações a mim, me perguntam o que eu acho e falo, não faço política, pois não tenho rabo preso.

AIDM: Quando a banda estava totalmente parada, você trabalhou em outros estilos musicais bem diferentes do metal, o que gerou ainda mais comentários pelos fãs do Dorsal. É uma realidade do artista brasileiro tocar estilos mais populares para viver de música. Diante de tantas dificuldades de fazer metal no Brasil, o que há de errado em tocar outros estilos?

CL: Eu toquei outros estilos, não para sobreviver, fiz por questões artísticas, porque a música pesada já não me bastava. Não se iluda acreditando que eu mudei de estilo para ganhar dinheiro ou sobreviver, mudei por esgotamento da mesma fórmula. Mudei porque todo artista de fato precisa de novos desafios, o artista-burocrata não é uma questão minha. Cada um que faça o que for melhor para si. Como você falou, um artista, o de verdade, é claro, cria. Um músico, toca cover na noite para sobreviver. Não estou tecendo comentários pejorativos sobre músicos da noite, só estou dizendo que eu eu não faço, e não farei, não é a minha. Nunca toquei na noite para sobreviver, não é do meu feitio, eu sou um criador, não um repetidor.

AIDM: Você chegou a declarar que nunca quis voltar, mas que muitas pessoas perguntavam sobre o retorno do Dorsal. Você quis dar essa chance à banda só por causa disso mesmo?

CL: Como já disse antes, não se convence quem não quer ser convencido. Assim que dei a Dorsal por encerrada em minha vida, fui fazer outras coisas, tocar outros estilos musicais, escrever livros, etc… Não enchi o saco de ninguém, fui viver a minha vida. Sobre a volta da Dorsal, que não é volta, mas campanha para um novo CD, ela nasceu de dois motivos: pedidos insistentes de fãs durante 12 anos e por termos sido convidados para sermos os headliners do Metal Open Air com abertura do Exodus e Anthrax. Agora pense comigo, sofrer uma baita pressão dessas, psicologicamente não é brincadeira… imagine que alguém desse em cima de você por 12 anos? Talvez você cedesse, como um ato de amor, até mesmo para ver “qual é”. Convenhamos que a sua própria pergunta denota dúvida: “.. só por causa disso mesmo?”. Por isso te falo que não se convence quem não quer ser convencido.

AIDM: Atualmente o metal brasileiro vive um momento de revivals. Bandas clássicas têm aparecido com grandes surpresas, como o Stress, o Viper e até mesmo o Taurus. O que você acha disso?

CL: Na verdade não tenho nada a ver com essa revival, é opção de cada banda por motivos que não me compete julgar, cada cabeça, uma sentença. A Dorsal não voltou, ela está envolvida em uma campanha que terminará em menos de uma semana. Não tenho intenção de tocar sem o CD novo.

AIDM: Aliás, enquanto veterano, como você vê o metal brasileiro oitentista e a situação em que ele está atualmente? Ainda há espaço para a anti ode Metal Desunido?

CL: Se o metal continua desunido, não é uma questão minha. Me mantive afastado do metal e por isso não é justo que eu fale sobre algo que não acompanhei. Em 12 anos autorizei os relançamentos da Dorsal em CD, regravei o Antes do Fim Depois do Fim em 2005 (relançado em digipack agora) e produzi e apresentei um programa sobre metal na Rádio Venenosa FM, do Rio, chamado Puro Metal.

AIDM: Uma das grandes dificuldades que você relata no Dorsal era a de que as gravadoras não repassavam os lucros com a venda dos álbuns. Atualmente estamos vivenciando o náufrago da indústria fonográfica com os downloads e a pirataria. Antes, o público tinha como única alternativa comprar a bolacha e escutar a banda. Hoje ele pode escolher o que escutar, diretamente da rede, e os downloads não são vistos como crime. Como você encara essa inversão de valores e essa nova realidade no mundo da música?

CL: Não há inversão de valores, há a necessidade humana de sobrevivência a qualquer custo, inclusive a sobrevivência da maldade humana. O antigo se metamorfoseia em novo para voltar à tona. Veja o caso da internet, ela não faz com que o caráter humano progrida, apenas acelera a comunicação, um estuprador agiria por carta ou telefone no passado, hoje usa a internet… O que estamos propondo na campanha da Dorsal é sim, a verdadeira revolução: retirar o atravessador do caminho no mercado fonográfico e colocar o poder diretamente nas mãos do povo. Alguma gravadora já abriu as contas, mesmo as underground? Se abrirem as contas, a máscara cai.

AIDM: Caso a campanha consiga seu objetivo, o Dorsal gravará apenas um único álbum ou você pretende dar prosseguimento às atividades da banda? Vocês pensam em fazer turnês?

CL: Recebo propostas diárias de empresariamento e turnês, inclusive no exterior, mas nada disso acontecerá sem o novo CD. Pode-se contribuir financeiramente para que a Dorsal Atlântica grave um novo CD de inéditas até o domingo, dia 10 de junho. O apoiador terá o seu nome impresso no encarte do digipack, e dependendo do valor do apoio, pode receber brindes que não serão vendidos depois da campanha, como a reedição da biografia Guerrilha!, revisada, com capa dura e papel couchê. Na página oficial  o link da catarse.me, o site responsável pelas contribuições, está na coluna à direita na página inicial da Dorsal. Outra possibilidade é acessar diretamente o site catarse.me. Você pode logar através de sua conta do Facebook. Clique no link e vá para a página do projeto.

AIDM: Além da iminente volta do Dorsal Atlântica, o que você tem feito em termos de rock e metal ultimamente?

CL: Me dediquei mais à literatura nos dois últimos anos e a projetos culturais. O último trabalho que gravei foi o CD do projeto educacional, História Cantada, no qual conto e canto a história do Brasil em ritmos diversos.

AIDM: Muito obrigada, Carlos. Para encerrar, gostaria que você desse algumas palavras finais. Espero vê-lo por aí em breve.

CL: Apoiem a campanha caso todos queiram fazer parte da história. Não é uma campanha pela Dorsal ou pela música pesada, mas pela revolução já em um país que ainda vive escravizado.